Fonte: Interface CTI

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Eles são essenciais para a pesquisa científica, para diagnósticos em saúde humana, pecuária e agricultura. Mas quase todos os anticorpos comerciais utilizados no país são importados, o que representa uma limitação para seu uso. Quem quiser produzi-los internamente tem pela frente uma série de etapas que começam com o domínio da tecnologia e vão até a comercialização. Parte importante desse trajeto já foi percorrida pela Rheabiotech, de Campinas, que mostra uma experiência inovadora na produção de anticorpos no país.

Criada em 2004, como startup da Unicamp, a empresa nasceu com o nome de Imuny e com o propósito de suprir as necessidades de anticorpos policlonais dos laboratórios da própria universidade. A motivação foi a experiência da pesquisadora Fernanda Alvarez Rojas, bioquímica da Unicamp, e de seus colegas. Os anos de trabalho na pós-graduação foram marcados pelas dificuldades de obter insumos importados para pesquisa, entre eles os anticorpos baseados em imunoquímicos. Com apoio financeiros da FAPESP ela e duas colegas pesquisadoras abriram a empresa tendo como clientes os laboratórios conhecidos..

Os anticorpos policlonais fornecidos pela Imuny tornaram-se uma alternativa para os importados, com preços e prazos de entrega menores, e livres dos trâmites da importação. O número de clientes potenciais é amplo pois toda pesquisa que trabalha com o estudo de proteínas pode necessitar dos anticorpos – o estudo de uma patologia, por exemplo, feito através das expressões das proteínas. Além disso, em geral, cada pesquisa demanda um anticorpo específico.

“Nossa vantagem é também que existem muitos grupos de pesquisa que precisam de anticorpos que não estão disponíveis nem por importação”, e isso leva ao atendimento sob demanda, explica. Hoje a empresa conta com um catálogo com cerca de 300 anticorpos relacionados em seu site e a atividade é a principal geradora de receita. Para comparação, grandes fornecedores internacionais mantêm catálogos com cem mil itens.

A experiência da Imuny mostrou a possibilidade de ingressar em outras áreas, nos mercados de agricultura, pecuária e saúde humana. Para isso foi criada a Rheabiotec, com foco mais amplo, voltada para outro perfil de clientes, e com o objetivo de produzir kits de diagnóstico. A nova empresa começou a operar em 2008 e incorporou a marca Imuny. O primeiro resultado foi o Soja Detecta, nome comercial do kit que reúne um conjunto de componentes para diagnóstico da ferrugem da soja, neste caso já empregando a tecnologia de anticorpos monoclonais. O kit permite aos agricultores identificar a presença da ferrugem quando a doença ainda não está visível nas folhas da planta, e assim antecipar ações com defensivos, antes que o fungo se alastre, para diminuir seu impacto.

Tornar-se um fornecedor do agronegócio , entretanto, traz a necessidade de ter uma estrutura de produção e comercial que a empresa vem se empenhando em construir. Depois da versão original do kit, que requer do agricultor conhecimento técnico para aplicação, a empresa investe em um outro formato, mais simples, e mais caro. Aqui, os testes são feitos com o uso de fitas que revelam a presença da doença quando em contato com o material contaminado. A nova versão deve ser validada em campo em 2015.

Introduzir um produto ainda não conhecido do agricultor, relata Fernanda Alvarez, é uma tarefa que requer tempo e profissionais qualificados na área comercial, atividade pouco familiar aos pesquisadores da universidade. “Nossa expectativa é nos associarmos a um dos grandes fornecedores de insumos para agricultura”, diz.

Outra linha de trabalho é a produção de kits para diagnóstico da salmonelose suína, projeto em parceria com a Embrapa. Em fase final de desenvolvimento, e aguardando certificação dos órgãos governamentais, o kit vai atender os frigoríficos que precisam atestar a ausência do micro-organismo na carne comercializada.

Dois projetos na área de saúde humana abrem possibilidades auspiciosas para o futuro. Um deles é o kit diagnóstico de processos inflamatórios e das doenças deles decorrentes, como o reumatismo. A parte de diagnóstico já está em fase de validação, nota a diretora. Mas o projeto traz um desdobramento importante que é a humanização desse anticorpo para ser usado como medicamento no tratamento das doenças. Outro projeto, em parceria com o laboratório Laboratório Nacional de Biociências, LNBio, de Campinas, tem a meta de produzir kits de diagnóstico para alguns tipos de leucemia infantil. Com uma equipe pequena, de sete pessoas, a Rheabiotec tem nas parcerias, como as feitas com a Embrapa e LNBio, o caminho natural para ampliar atividades de pesquisa ou de distribuição comercial. A partir da etapa atual, além disso, tornam-se maiores as necessidades de investimento e de parceiros investidores.